PAIS DE TENISTAS

 

A cada competição de tênis que acompanho nossas crianças e adolescentes, fica mais evidente que os fatores extra quadra, principalmente os “comportamentais”, nos quais os pais estão ligados diretamente, estão deixando a “gurizada” menos preparada para o jogo e, consequentemente, para a vida.

Já faz alguns anos que o tênis de “alto rendimento”, não está mais tão presente nos clubes (com algumas exceções), até porque, na minha opinião, o papel do clube é incluir as crianças para o esporte e proporcionar a melhor formação possível, mas deixarei este tema para outro momento, pois o tênis ou qualquer esporte de competição em alto nível demanda valores em dinheiro altíssimos para pouquíssimos atletas. Sendo assim, o tênis competitivo está majoritariamente em academias privadas e treinadores particulares, que cobram, claro que sim, é trabalho, para acompanhar o atleta que decidiu competir (ou os pais decidiram por ele) nos torneios de todos os tamanhos e tipos. Dentro deste cenário, atualmente observamos muitos pais em competições, uma realidade que na minha época era diferente, onde o tênis estava apenas em clubes e viajávamos muitas vezes entre 20, 30 tenistas e somente um professor cuidando de todos.

Existem pais de todos os tipos, alguns mais intensos, outros menos, ambos para o lado bom quanto para o não tão bom assim. Abaixo alguns perfis  que os atletas, árbitros, organização, preparadores físicos, treinadores e público em geral, estão convivendo nos eventos:

– Pais que não são do meio esportivo, não entendem da competição ou do esporte, mas ficam felizes por que o filho está inserido em um ambiente saudável, adquirindo habilidades que o ajudarão na sua formação para a vida.

– Pais que não jogam tênis ou jogam apenas socialmente, gostam do esporte, olham vídeos na internet, buscam toda e qualquer informação nas redes, viram autodidatas, convictos do que é o melhor para o seu filho. Decidem e manejam competições e treinos, muitas vezes sem consultar o próprio treinador do jovem. Este tipo de pai é bastante tóxico, pois sentir aquele nervoso na barriga de encontrar-se numa situação tensa dentro da quadra, não foi vivenciada por ele.

– Pais que possuem a percepção clara da competência do que o filho consegue realizar e visualizam até aonde poderá chegar e suas limitações, tanto em desempenho quanto em ranking e pais que ao contrário, não possuem esta percepção, consequentemente, não conseguem ver pequenos aspectos que impedirão um desenvolvimento maior do filho no esporte. Ex: Tiques nervosos, organização pessoal, dificuldade motora básica, etc.

– Pais que já competiram em esportes individuais – porque se falarmos em equipe é outra realidade – sabe das dificuldades e levam os filhos numa ‘vibe” saudável e ainda os que competiram e não aceitam do filho nada menos do que eles próprios alcançaram.

Resumindo, não existe um padrão único de pais de tenistas, mas um fato todos têm em comum: o amor pelos filhos! Amor este muito mais passional do que racional, e que pode ajudar muito nossos tenistas.

Aqui vai o meu questionamento e até sugestão: não seria mais saudável os pais escolherem apenas algumas competições para acompanharem os filhos? Não seria melhor para promover a autonomia do atleta? Deixar que andem sozinhos, arrumem e carreguem seus pertences, que tenham responsabilidade para cuidar e prestar contas do dinheiro, sofrer as consequências de escolhas e atitudes inadequadas e de maneira alguma aceitar comportamentos não condizentes, conversar com outros treinadores e “filtrar” o que realmente é importante, saber e procurar aprender as regras do tênis, evitando assim possíveis punições ao filho, buscar entender os regulamentos de cada órgão do esporte e seus eventos.

Finalizando, o tênis não é uma ciência exata, não se soma “20 pontos + 20 pontos = 1º do ranking. O processo é longo, difícil, é para poucos e se não for prazeroso, certamente também será curto.

Com carinho, de uma mãe e ex-tenista profissional para todos os pais de tenistas!

 

Sabrina Giusto é ex-tenista profissional e agora colunista da FGT.

 

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One Comment

  1. Concordo em partes. Depende da idade de seu filho, depende do perfil onde está, mas a presença dos pais denota apoio para que ele tenha estrutura para alçar voos mais longos, quem sabe. Não temos apoio nenhum e somos nós pais que subsidiamos todo este desejo de nossos filhos de se tornarem, quem sabe, num tenista profissional. Acho muito importante a presença dos pais no inicio da vida competitiva de seus filhos. Mas sempre digo que um novo Guga, “só daqui a 400 anos”. Porquê? Não possuímos apoio aos novos talento, patrocínio e etc e tal. Tenho vários conhecidos que venderam casas, fizeram empréstimos, rifas e o que você pode imaginar para conseguirem levar seus filhos ao profissionalismo. Mas, achas que um menino de 18 anos consegue com sua raqueteira, viajar a Europa inteira atrás de torneios? Sozinho e sem nenhum acompanhamento? Por isso digo, a paixão movimenta nosso esporte, mas se tivéssemos mais auxílio por parte da iniciativa privada, governamental e leis desburocratizadas, seria muito mais fácil. Talentos temos, como lapidá-los tbem, porém, quando são lançados ao mundo fracassam.

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